sexta-feira, 8 de outubro de 2010

"Isto não é um cachimbo"

- O que é arte?Pra que serve?Com que finalidade?
Na verdade, não há verdades.
A arte é o nada se perfazendo ou o tudo se nadificando, se preferir.
A arte, assim como a vida, não possui pretensão alguma senão brotar, viver desvivendo, morrer renascendo, devir. Ela não é um fim, um instrumento. Ela é o próprio fluxo que nos envolve, ela é a voz, a pulsão que todos nós possuimos, seja ela construtiva ou destrutiva. Ela é o berrar feroz, o clamor desesperado do profundo, daquilo que não quer rédeas, daquilo que diz não aos fundamentos, às idéias, às regras.
A arte é o apelo da alma por vida, é a denúncia contra o massacre cruel praticado pela razão. É o zombar que a vida dedica aos tolos, donos do inomeavel, do indomável.
A arte não se quer útil, ela é justamente aquilo que não se adequa, o que não tem praticidade no mundo das ideias.
A arte é a vida se declarando poesia, se declarando liberdade, se declarando possibilidade não de ser, mas de devir.
Não possuimos a vida, ela nos possui. O artista não cria uma obra, ela o cria, ela o transcende. A obra é sempre maior que o artista, transpassa a criação a outras vidas.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Há muito a ausencia nao trazia desespero, o subterraneo nao emergia à superfície e não se dava voz ao silencio.
Há muito não se queriam ouvir as vozes que sopram nos mais intimos e distantes abismos.
Só quando tudo cessa de se tecer na trama dos dias, é que se sente com a alma, se vê além do que se pode racionalizar, além de qualquer moral. É neste plano, e somente neste, quando nao se permite ser arrebatado pela vida, que se sabe quao audaz é o ser humano, tentando a todo momento traçar sentidos entre o nascer e o morrer, utilizando-se de seus sentires e privares para contruir estruturas solidas de ideias.
Mas o que deva ser logico foge sem cessar ao homem e sua condição finita. Sucumbem às eras todo traço humano já delineado.
Conceitos sao mortais, toda relação humana regida por ordens é apenas pó diante do brotar incessante dos sentimentos e da falta de linearidade da vida.
Pode-se amar um morto, mas ele está fora de toda e qualquer jurisdição social, ética ou moral.
Pode a ciência, aclamada como verdade absoluta, inventar curas para toda doença, mas ainda assim é preciso morrer, ainda assim há quem morra por sonhos, ideais.
A vida sempre corre depressa a quem pouco se interessa por seus surdos falares misteriosos.
A cada segundo há atores, em toda parte, vestindo e despindo-se de mascaras, tentando arrancar aplausos da plateia, antes que as cortinas se fechem. Rir e chorar é regra aos expectadores ao se tornarem um e mesmo com o personagem em cena. E assim, com teceres intrincados e enredos urdidos, os laços humanos ganham plenitude e superam o proprio humano.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Noturno

Quem tem coragem de perguntar, na noite imensa?
E que valem as árvores, as casas, a chuva, o pequeno transeunte?

Que vale o pensamento humano,
esforçado e vencido,
na turbulência das horas?

Que valem a conversa apenas murmurada,
a erma ternura, os delicados adeuses?

Que valem as pálpebras da tímida esperança,
orvalhadas de trêmulo sal?

O sangue e a lágrima são pequenos cristais sutis,
no profundo diagrama.

E o homem tão inutilmente pensante e pensado
só tem a tristeza para distingui-lo.

Porque havia nas úmidas paragens
animais adormecidos, com o mesmo mistério humano:
grandes como pórticos, suaves como veludo,
mas sem lembranças históricas,
sem compromissos de viver.

Grandes animais sem passado, sem antecedentes,
puros e límpidos,
apenas com o peso do trabalho em seus poderosos flancos
e noções de água e de primavera nas tranqüilas narinas
e na seda longa das crinas desfraldadas.

Mas a noite desmanchava-se no oriente,
cheia de flores amarelas e vermelhas.
E os cavalos erguiam, entre mil sonhos vacilantes,
erguiam no ar a vigorosa cabeça,
e começavam a puxar as imensas rodas do dia.

Ah! o despertar dos animais no vasto campo!
Este sair do sono, este continuar da vida!
O caminho que vai das pastagens etéreas da noite
ao claro dia da humana vassalagem!
(Cecília Meireles)
Murmúrio

Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.

Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.

Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!
(Cecília Meireles)