sábado, 8 de abril de 2023

 Ela estava perdida. Atravessava a cidade todos os dias. Sentia-se feliz com todo aquele fluxo de pessoas e paisagens familiares. Era um cenário seu, vivo, cheio de possibilidades. 

Ainda assim a angústia lhe doía. Era como se todos os caminhos a salvassem e em mesma medida a amaldiçoassem. Queria que a levassem a ele. Ainda que essa fosse sua perdição. 

Aquela figura incapturavel, em movimento, perigo de loucura. Queria senti-lo ali. Vê-lo, tocá-lo, ser dele. Queria partilhar corpo, sede, existência. Abrigá-lo em si. Ser fluxo de vida junto com ele.

Isso se deve nomear? Está no suprasenso de todo o entendimento. 

Amor.

Dor. Calor. Sabor. Torpor. Dissabor.

A fortuna, que sempre a abençoara, agora a observava de longe a trilhar trágico destino.

Ele não lia a poesia do mundo, nem dela.

Vivia em outro ponto da cidade, onde o mar salgava os espíritos de praticidade e vaidade.

Estava perdida.

Os caminhos ensinam sobre o abismo e regresso a si mesmo. Perder-se também é busca por achar-se.

A roda girava movendo caos, trens, ônibus, carros, paisagens suas. Encontros.




quinta-feira, 6 de abril de 2023

 

Sinto fome. Me consome. A ânsia de te ter. Tocar sua pele. Ser toque. Dançar com o ritmo do seu corpo. Queimar com seu calor. Ser êxtase, vibração, impulso, fluxo. 

Trânsito entre dois corpos. Contato entre almas que se devoram. Que se reencontram. Amantes. São início e fim. São todo o universo em um único ato.

Não sei fazer poemas de amor.

Cultivo apenas a Tristeza, companheira dos sorrisos.

Eis que surge, com a despretensão dos destinos,

Sua imagem a enfeitar meu dia, alma em radiância, 

Foto, distante, alheia, sem mim.

Sorrio. Converte-se em linda figura da minha dor. 

A ti, desejo-lhe, de pronto

Apenas toda a existente alegria.


terça-feira, 13 de setembro de 2022

 Lembrar

do para que vivemos

Levar

dias como se fossem canções

Elevar

a alma ao mais alto do ar

Alcançar

o fluxo contínuo que faz nascer

Esperar

pela noite e pelo desconhecido morrer

sexta-feira, 6 de maio de 2022

Cura

A pele conecta. Transpassa energia. É ponte para o outro. O toque é como chegamos ao universo. Pode ser comunhão. Invasão,  violência, violação.  Também cura, propósito,  união. 
Nossos corpos precisam de calor, de carinho,  seja pela simples constatação do alcance do outro,  da existência,  de não estar só.
Somos feitos da mesma matéria,  o mesmo pó de estrelas.  Somos universo.  Por que é tão doce e tão difícil a conexão? 

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

 Se lhe inquieta, saia do lugar. Faça.

Ande o quanto esse ímpeto determinar.

Ouça o que vem das profundezas. O corpo é sábio, a vida é fluxo e troca.

Ela doa e toma. Ela é você, e tudo, e todos. Seja, viva, ande.

Pra frente que se vai, mesmo que em ondas, de sinuoso chegar.

Por vezes é o tombo que faz chegar o mais profundo do dentro.

sábado, 16 de outubro de 2021

 É como se todas as estórias já estivessem gastas. Nada resta além do cansaço, do imponderável desespero, da ânsia do que não existe. Vazio. Nenhum lugar.

Minha história não faz sentir, é esquecimento, desengano.