segunda-feira, 25 de março de 2013

Eis o mistério que nos ronda. A cada passo dado a doçura do disdizer.
Vida, largos andares a caminhos de não chegar. Incerteza que aponta apenas o fim, o barro encima da face.
São tantas as coisas belas - com finalidade apenas de serem belas - , prazer sem par das retinas, dos ouvidos, do toque.
Pasmem todos, segue-se a vida em seu farfalhar misturando o belo e o grotesco, transformando novo em velho e em novo novamente.
Caminhos seguem-se e levam-nos a unicidade da experimentação. Não é exato, mas é sentido. E sentido é único, uníssono. Talvez jaza aí todo o mistério.
Não importa se há sentido, importante mesmo é experimentar a vida.


Vincent Van Gogh - Campo de Papoulas

sexta-feira, 22 de março de 2013


Angústia que consome, queima... faz tudo se inquietar, grito abissal, fantasmagórico... pavor do vazio, da alma ao relento.
Vozes enlouquecedoras a ventar redemoinhos. Lá se vai toda a sanidade... voa para bem longe... talvez veja-me seguir pela estrada de tijolos amarelos  ou entrar pelo buraco do coelho.
Sem sentido algum, a única verdade que ronda a vida.
Podemos tentar ser, criar, amar, mas senso, isso não é com a vida. No final tudo é apenas disnexo, flutuar dentre as possibilidades do infinito que passou por seu ser.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013


Perco a ternura das nuvens, leves, em seu fazer de conta além dos tempos;
Estão crepusculares, em seu mistério multicolor, coral, rosa, vermelho, roxo... mata-se o dia e surge a dama de preto.
Linda moça indecifrável, com suas vestes aladas de estrelas cadentes.


Como é estar sozinha? perder a tal da terceira perna?
quero poder ser, plena e em metamorfose

sábado, 27 de outubro de 2012

Muito cansada. Cansada das pessoas.
Chega de obrigações desnecessárias, de pessoas desnecessárias, de bondade desnecessária.
Cansada de não pertence a lugar algum, de sempre ter algo impedindo, magoando, de não ter liberdade para coisa alguma.
Estou petrificada, paralisada, com correntes muito pesadas. Talvez eu não aguente por muito tempo.
A alma é por demais frágil para suportar tanta falta de vida.


José

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?

Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, proptesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,

a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia

e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,

seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?

Com a chave na mão 
quer abrir a porta,
não existe porta;

quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.

José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você consasse,
se você morresse....

Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!

José, para onde?

(Carlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Vontade de nada. Tudo anda tão solto, fora do lugar.
Falta o sentido, caem os gestos, as palavras.
O vento mudou, está derrubando todas as folhas, sujando todo o chão.
É tempo de varrer mesmo contra o vento.
Não se sabe quanto tempo levará para que o colorido tome posse das flores e o sol conduza a um lugar sem fim.
Casa vazia, moendo-se aos poucos.
Morre-se por dentro, lá fora as folhas sujam todo o quintal.