quarta-feira, 23 de janeiro de 2013


Perco a ternura das nuvens, leves, em seu fazer de conta além dos tempos;
Estão crepusculares, em seu mistério multicolor, coral, rosa, vermelho, roxo... mata-se o dia e surge a dama de preto.
Linda moça indecifrável, com suas vestes aladas de estrelas cadentes.


Como é estar sozinha? perder a tal da terceira perna?
quero poder ser, plena e em metamorfose

sábado, 27 de outubro de 2012

Muito cansada. Cansada das pessoas.
Chega de obrigações desnecessárias, de pessoas desnecessárias, de bondade desnecessária.
Cansada de não pertence a lugar algum, de sempre ter algo impedindo, magoando, de não ter liberdade para coisa alguma.
Estou petrificada, paralisada, com correntes muito pesadas. Talvez eu não aguente por muito tempo.
A alma é por demais frágil para suportar tanta falta de vida.


José

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?

Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, proptesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,

a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia

e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,

seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?

Com a chave na mão 
quer abrir a porta,
não existe porta;

quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.

José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você consasse,
se você morresse....

Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!

José, para onde?

(Carlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Vontade de nada. Tudo anda tão solto, fora do lugar.
Falta o sentido, caem os gestos, as palavras.
O vento mudou, está derrubando todas as folhas, sujando todo o chão.
É tempo de varrer mesmo contra o vento.
Não se sabe quanto tempo levará para que o colorido tome posse das flores e o sol conduza a um lugar sem fim.
Casa vazia, moendo-se aos poucos.
Morre-se por dentro, lá fora as folhas sujam todo o quintal.


domingo, 12 de agosto de 2012

Cuando tenga la tierra


Existir desnecessário.
Preciso remar contra essa falta de nexo. Não quero amanha seguir por aquele caminho... rumando a mediocridade.
Não!
Quero seguir pela estrada de ninguém, rumo ao absoluto nada... prestes a tocar o infinito...
Quero sentir a terra nova, possuir as cores do crepúsculo...voar , asas negras à tocar a noite.
Saudar o brilho sagrado das estrelas.
Inundada pelo ritmo do vento. Nas veias a arder o sabor do mundo.
Dançaríamos ao som da alma do mundo...

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Lembro-me de um tempo onde o virtual era a única realidade querida.
Minhas amadas cores, palavras de tamanhos e dizeres meus.
Meu tocável mundo.
Faz de conta de delícias.
Verborragia não lúcida, translúcida.
Meu mundo de caminhos por fazer, de vida a se desmensurar.
Verdades só minhas, inventáveis, coloríveis.
Infeliz o dia em que este espaço não mais saciou o desejo colossal da alma de experimentar.
Sua experimentância era tão cega que roeu o mundo fantasia, o mundo poesia.
Caminho que se foi, percursos torpes, alma sem cores.
Mas não há viver sem a poesia do existir não existindo, do perceber do em se fazendo das coisas.
Meu mundo necessário retoma ao virtual.
Chega desse vazio sujo e vulgar dos dias. Quero sorrir novamente, verdadeiramente, com as pequenas artes escondidas em cada não dizer cantante do dia.