quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Lembro-me de um tempo onde o virtual era a única realidade querida.
Minhas amadas cores, palavras de tamanhos e dizeres meus.
Meu tocável mundo.
Faz de conta de delícias.
Verborragia não lúcida, translúcida.
Meu mundo de caminhos por fazer, de vida a se desmensurar.
Verdades só minhas, inventáveis, coloríveis.
Infeliz o dia em que este espaço não mais saciou o desejo colossal da alma de experimentar.
Sua experimentância era tão cega que roeu o mundo fantasia, o mundo poesia.
Caminho que se foi, percursos torpes, alma sem cores.
Mas não há viver sem a poesia do existir não existindo, do perceber do em se fazendo das coisas.
Meu mundo necessário retoma ao virtual.
Chega desse vazio sujo e vulgar dos dias. Quero sorrir novamente, verdadeiramente, com as pequenas artes escondidas em cada não dizer cantante do dia.



sexta-feira, 27 de julho de 2012


Perco a ternura das nuvens, leves, em seu fazer de conta além dos tempos;
Estão crepusculares, em seu mistério multicolor, coral, rosa, vermelho, roxo... mata-se o dia e surge a dama de preto.
Linda moça indecifrável, com suas vestes aladas de estrelas cadentes.

quarta-feira, 27 de junho de 2012


PRIMEIRA LIÇÃO

Na escola primária
Ivo viu a uva
e aprendeu a ler.

Ao ficar rapaz
Ivo viu a Eva
e aprendeu a amar.

E sendo homem feito
Ivo viu o mundo
seus comes e bebes.

Um dia num muro
Ivo soletrou
a lição da plebe.

E aprendeu a ver.
Ivo viu a ave?
Ivo viu o ovo?

Na nova cartilha
Ivo viu a greve
Ivo viu o povo.
Lêdo Ivo
O último poema

Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.



Manuel Bandeira

terça-feira, 29 de maio de 2012

Aquela menina que sempre precisou cultivar amigos como uma horta frágil, suscetível ao tempo;
Uma menina que nunca conseguiu construir sua personalidade ou auto-estima, apoiando-se sempre em imagens distorcidas do mundo.
Uma menina que sufoca a quem tem amor porque nunca conseguiu cativar pessoas que se importassem, pessoas que a considerassem humana o suficiente para se dividir algo.
Passa pela vida sem que alguém diga a ela que pode ser o que quiser, que nada disso importa, e que ela é importante na vida de alguém.
Aquela menina que precisa escrever para se encontrar. Pois não há ninguém que a ajude a desembaralhar esse emaranhado de vida.
Sobre a mesma menina, talvez, alguém em algum tempo futuro ouça dizer: "É, ela se atirou do décimo segundo andar.", e responda: "Aquela menina? Que pena, tinha simpatia por ela."

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Quero poder sentir
Apenas sentir
Sem carecer de sentido
A volúpia do ser
Do estar
De você.